De tanto ver, a gente banaliza olhar. Vê não-vendo. Esperimente ver pela primeira vez
o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é
familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo o dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que você vê
no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. O habito suja os olhos e lhes baixa
a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que um adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.
O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê. Há pai que nunca viu os filhos. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia a dia, opacos. É por ai que se instala no coração o monstro da indiferença.
Nenhum comentário:
Postar um comentário